Política

O “muquifo” do vereador e a casa onde cabe um sonho inteiro

Ao chamar de “muquifo” as casas populares construídas pela CDHU em Taquarivaí, vereador José Carlos Paulino Nogueira transformou uma discussão sobre habitação em uma frase que atinge justamente quem ainda espera pelo direito elementar de ter um teto para chamar de seu

Há palavras que escapam da boca e desaparecem antes do fim da sessão. Outras sobrevivem ao microfone, atravessam as paredes da Câmara e chegam justamente aos ouvidos de quem jamais deveria ter sido atingido por elas. Foi o que aconteceu em Taquarivaí depois que o vereador José Carlos Paulino Nogueira se referiu como “muquifo” às casas populares do empreendimento habitacional Taquarivaí-B. A gravação da sessão, segundo verificação feita a partir do vídeo mencionado na repercussão do caso, registra a expressão. E o problema não está apenas numa palavra infeliz. Está no que ela representa.

O empreendimento existe para atender uma parcela da população que conhece muito bem o peso de não ter casa própria. São 28 unidades habitacionais, cada uma com 48,99 metros quadrados, dois quartos, sala, cozinha, banheiro e lavanderia, conforme o edital oficial da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo, a CDHU. Pode-se discutir se 48,99 metros quadrados são suficientes. Pode-se defender casas maiores. Pode-se cobrar melhor acabamento, infraestrutura, localização, planejamento urbano e investimentos. Um vereador não apenas pode fazer isso como deve. Fiscalizar é parte do cargo. O que é difícil aceitar é que uma casa destinada a quem precisa seja resumida, diante de um microfone público, à palavra “muquifo”.

Porque uma casa popular nunca é apenas a metragem registrada numa planta.

Pergunte a quem paga aluguel e precisa escolher, todo fim de mês, qual conta ficará para depois. Pergunte ao trabalhador que passa o dia inteiro fora de casa e vê boa parte do salário desaparecer antes mesmo de chegar à mesa da família. Pergunte à mãe que mora de favor com os filhos na casa de parentes e sabe que, apesar de todo acolhimento, aquela chave que gira na porta ainda não é sua. Pergunte ao casal que passa anos economizando e mesmo assim descobre que o financiamento imobiliário está muito além de suas possibilidades.

Para essas pessoas, 48,99 metros quadrados podem ser maiores que um palácio.

Não pela metragem.

Pelo significado.

É ali que alguém poderá colocar pela primeira vez uma placa com seu número na frente da casa. É ali que uma criança poderá dizer aos colegas da escola “essa é a minha casa”. É ali que uma família poderá comprar uma mesa sabendo que não precisará desmontá-la na próxima mudança porque o proprietário pediu o imóvel de volta. É ali que alguém poderá plantar uma roseira, pintar uma parede, escolher uma cortina e fazer uma coisa banal para milhões de brasileiros, mas extraordinária para quem viveu décadas sem patrimônio: fechar a porta à noite sabendo que aquele teto é seu.

Isso é o que desaparece quando uma casa popular vira “muquifo” no vocabulário político.

O Diário Oficial de Taquarivaí confirma José Carlos Paulino Nogueira entre os vereadores do mandato 2025–2028. Portanto, não estamos falando de uma conversa de boteco, de uma frase pronunciada no portão de casa ou de uma opinião perdida numa roda de amigos. A tribuna de uma Câmara Municipal é um espaço institucional. Quem fala dali não fala apenas como José Carlos. Fala investido no mandato que recebeu das urnas. E mandato público aumenta a responsabilidade das palavras, não diminui.

Depois da repercussão, um texto de repúdio da Administração Municipal passou a circular nas redes sociais. O documento acerta no ponto mais sensível da história: talvez seja fácil enxergar apenas o tamanho de uma casa quando não se vive a angústia de precisar dela. Para quem paga aluguel, a casa própria significa liberdade. Para quem mora de favor, significa independência. Para quem vive em condições precárias, representa segurança. Para pais que passam anos tentando oferecer alguma estabilidade aos filhos, pode representar a maior conquista material de toda uma vida.

Existe também uma questão que precisa ser enfrentada sem demagogia. Casa popular não precisa ser imune a críticas. Ao contrário. Dinheiro público exige fiscalização. Se o vereador considera as unidades pequenas demais, deveria explicar qual metragem considera adequada. Se enxerga problemas no projeto, deveria apontá-los. Se acredita que o investimento poderia produzir imóveis melhores, cabe demonstrar números, apresentar alternativas, cobrar a CDHU e o Executivo. Essa seria uma discussão política legítima e até necessária.

Mas “muquifo” não é argumento técnico.

Não mede parede.

Não calcula custo.

Não fiscaliza contrato.

Não aponta defeito de engenharia.

É apenas uma palavra.

E palavras, dependendo de onde são pronunciadas, dizem muito mais sobre quem as escolheu do que sobre aquilo que pretendiam descrever.

O empreendimento Taquarivaí-B está em construção por meio de parceria da CDHU com o município e compreende justamente as 28 moradias destinadas à habitação de interesse social. O próprio edital do Estado descreve a composição das unidades e estabelece os critérios de atendimento habitacional. Para uma cidade do tamanho de Taquarivaí, são 28 famílias que terão suas histórias alteradas. Talvez pareça pouco numa planilha estadual. Dentro do município, são dezenas de pessoas que podem deixar para trás anos de aluguel, improviso, favor ou insegurança.

Há uma diferença enorme entre olhar uma casa de fora e olhar para ela segurando a chave.

De fora, alguém pode enxergar 48,99 metros quadrados.

Na porta, uma mãe pode enxergar o quarto dos filhos.

Um pai pode enxergar o primeiro patrimônio construído depois de décadas de trabalho.

Um idoso pode imaginar o sossego de não precisar mudar novamente.

Uma criança pode simplesmente enxergar sua casa.

É essa dimensão que a política não pode perder.

O vereador poderia dizer que as casas são pequenas. Poderia exigir unidades maiores. Poderia questionar a política habitacional estadual. Poderia até fazer oposição dura à Prefeitura, se essa é sua convicção. Democracia também serve para isso. Mas existe uma fronteira entre criticar uma política pública e diminuir simbolicamente aquilo que ela representa para os mais pobres.

Quando essa fronteira é ultrapassada, a frase deixa a disputa entre Prefeitura e Câmara e chega à cozinha de quem está esperando pelo sorteio.

E é nesse ponto que a história deixa de ser sobre um vereador.

Passa a ser sobre respeito.

Talvez nenhuma das 28 casas tenha sala grande. Talvez não exista espaço para móveis sofisticados. Talvez o quarto seja apertado e seja preciso medir muito bem antes de comprar um guarda-roupa. Provavelmente não haverá garagem para dois carros, área gourmet ou suíte com closet.

Mas haverá uma porta.

Haverá uma chave.

Haverá um endereço.

E haverá alguém que, depois de uma vida inteira dizendo “a casa onde eu moro”, finalmente poderá dizer:

“A minha casa.”

Quem nunca precisou esperar por isso talvez enxergue apenas 48,99 metros quadrados.

Quem esperou sabe que ali cabe muito mais.

Cabe uma família.

Cabe dignidade.

Cabe segurança.

Cabe futuro.

E, principalmente, cabe um sonho inteiro.

Pode chamar de pequeno.

Pode discutir o projeto.

Pode cobrar melhorias.

Mas chamar de “muquifo” a casa que alguém passou a vida esperando para conquistar é esquecer que, para milhares de brasileiros, o luxo nunca foi morar numa mansão.

O luxo sempre foi ter a própria chave.

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