DIRETO DA CÂMARA - Entre vetos derrubados, saúde em colapso e cobranças ao executivo, vereadores elevam o tom em Itapeva
Sessão expõe desgaste entre Legislativo e Prefeitura, revela
gargalos históricos na saúde e escancara pressão por respostas imediatas à
população
A sessão desta segunda-feira, 16 de março, na Câmara
Municipal de Itapeva não foi apenas mais uma reunião protocolar com atas
aprovadas e projetos encaminhados. Foi, na prática, um retrato cru — quase sem
maquiagem — de uma cidade que cobra respostas enquanto o poder público ainda
tenta se organizar para entregá-las. Sob a formalidade do rito legislativo, o
que se viu foi um plenário inquieto, vereadores em tom mais assertivo e uma
sucessão de críticas diretas à condução administrativa do Executivo.
Logo no expediente, o tom burocrático deu lugar ao político.
Indicações relacionadas à mobilidade urbana, como a instalação de redutor de
velocidade no Jardim Maringá e a criação de faixa elevada em frente à Santa
Casa, reforçaram o que já virou rotina: demandas básicas seguem chegando ao
Legislativo como se fossem urgências acumuladas. Nada de novo — mas tudo cada
vez mais urgente.
O clima, no entanto, ganhou densidade no chamado “tema
livre”. O vereador Tarzan ocupou a tribuna como quem já não tem paciência para
rodeios. Trouxe à tona uma pauta estratégica: o uso e a destinação de áreas
públicas, especialmente terrenos vinculados ao Estado que poderiam retornar ao
município. Na prática, defendeu uma espécie de reorganização patrimonial como
instrumento de financiamento de políticas públicas. A ideia é simples no
discurso e complexa na execução: vender ativos subutilizados para investir em
infraestrutura, habitação e serviços.
Mas não parou aí. Ao tocar na ferida da habitação, o
vereador foi além da crítica e propôs um modelo: lote urbanizado com subsídio,
utilizando programas federais como o Minha Casa, Minha Vida. A tese é conhecida
— reduzir o custo de entrada para que famílias possam construir —, mas o
incômodo do parlamentar estava em outro ponto: a ausência de articulação
política para viabilizar o modelo. Em linguagem direta, faltaria interlocução
com o Governo do Estado.
Se o debate sobre planejamento urbano já era denso, o tema
da saúde escancarou o que muitos preferem tratar nos bastidores. A vereadora
Áurea Rosa trouxe números que não permitem relativização: mais de 7 mil pessoas
aguardando atendimento oftalmológico no município. Um dado que, por si só,
desmonta qualquer discurso de normalidade.
A crítica não ficou apenas na fila. A vereadora questionou a
lógica de licitações na área da saúde, citando o caso da compra de óculos por
empresas de fora do estado — uma decisão tecnicamente possível, mas
operacionalmente problemática. O argumento foi cirúrgico: saúde não se resolve
por catálogo digital. Exige acompanhamento, ajuste, manutenção. E, sobretudo,
presença local.
Na mesma linha, o debate avançou para um diagnóstico mais
amplo: a burocracia como inimiga do atendimento. Relatos de dificuldades para
agendamento, demora em procedimentos e até obstáculos no sistema CROSS
reforçaram a percepção de um sistema sobrecarregado e pouco responsivo. Não se
trata apenas de falta de recursos, mas de gestão.
No campo da segurança pública, o destaque foi para a atuação
da Patrulha Maria da Penha, que realizou prisão em flagrante dentro da Santa
Casa. O episódio, além de grave, evidenciou a necessidade de integração entre
os serviços — algo que ainda falha, já que a própria unidade de saúde
desconhecia a existência de medida protetiva.
Se há um ponto em que a Câmara demonstrou unidade, foi na
votação dos vetos do Executivo. Em sequência quase simbólica, três vetos foram
derrubados por unanimidade. Entre eles, propostas relacionadas à instalação de
câmeras em transporte escolar e faixas elevadas em frente às escolas. Mais do
que o conteúdo dos projetos, o recado político foi claro: o Legislativo não
aceita mais vetos sem diálogo prévio.
O argumento do Executivo — baseado em impacto financeiro e
competência administrativa — foi rebatido com pragmatismo. Para os vereadores,
segurança de crianças e monitoramento escolar não são luxo, são prioridade. E,
mais do que isso, são demandas diretas da população.
Outro ponto que expôs fissuras foi a relação com secretarias
municipais. Vereadores relataram dificuldades de comunicação, especialmente com
a Secretaria de Obras, citando ausência de respostas a ofícios e demora na
manutenção de estradas rurais. O problema, segundo os parlamentares, não é
apenas a execução — é a falta de retorno. E, na política, silêncio costuma ser
interpretado como descaso.
Na área econômica, o debate sobre o Refis revelou
divergências mais estruturais. Enquanto alguns defendem mecanismos modernos de
securitização da dívida ativa, outros alertam para a realidade local: uma
população com baixa capacidade de pagamento e um sistema que, muitas vezes,
penaliza mais do que resolve. No fundo, a discussão é sobre modelo — arrecadar
com eficiência sem asfixiar quem já está no limite.
A sessão também trouxe elogios, como o reconhecimento à
equipe de hemodiálise da Santa Casa, destacada pela qualidade do atendimento.
Um contraponto necessário em meio a tantas críticas, lembrando que há setores
que funcionam — e bem.
Ao final, ficou a sensação de que a Câmara vive um momento
de inflexão. Menos tolerante com justificativas genéricas, mais disposta a
confrontar decisões do Executivo e cada vez mais pressionada por uma população
que já não aceita promessas como resposta.
A política local, como se viu, entrou numa fase menos
confortável. E isso, para o cidadão, pode ser um bom sinal. Afinal, quando o
debate sobe de temperatura, geralmente é porque a realidade já ferveu faz
tempo.

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