Política

A primeira rachadura no poder: Câmara de Itapeva aceita denúncia e abre Comissão Processante contra Adriana Duch

Não foi uma sessão qualquer. Tampouco um rito burocrático desses que passam despercebidos pela população e só interessam aos anais legislativos. A leitura integral da denúncia contra a prefeita Adriana Duch, seguida da votação que autorizou a abertura da Comissão Processante, marcou um divisor de águas na política de Itapeva. Pela primeira vez desde o início do mandato, a prefeita deixou de ser apenas alvo de críticas retóricas para se tornar formalmente investigada por decisão soberana do plenário da Câmara Municipal de Itapeva. O que antes era ruído político ganhou contornos institucionais. O que era discurso virou processo.

A denúncia foi lida na íntegra. Palavra por palavra. Página por página. Não houve atalho, resumo benevolente ou tentativa de esvaziamento do conteúdo. O plenário foi obrigado a ouvir, do início ao fim, um documento robusto, extenso e juridicamente estruturado, que enumera uma sequência de condutas atribuídas à chefe do Executivo municipal e que, em tese, configurariam infrações político-administrativas previstas no Decreto-Lei nº 201/1967. O simples fato de a denúncia não ter sido engavetada já diz muito sobre o momento político. A leitura integral não foi um gesto de cortesia: foi um recado.

Encerrada a leitura, veio a hora que separa os discursos de campanha da prática parlamentar. A votação que decidiria se a denúncia seria arquivada sumariamente ou se daria origem a uma Comissão Processante expôs, com clareza solar, quem está disposto a sustentar o ônus político de investigar a prefeita e quem prefere permanecer na confortável zona da negação. O placar foi eloquente. Votaram favoravelmente à abertura da CP os vereadores: Áurea Rosa, Roberto Comeron, Júlio Ataíde, Lucinha, Marcelo Poli, Marinho, Tarzan, Ronaldo, Leitão, Val Santos e Pacheco. Contra, posicionaram-se Gleyce Dornelas, Robson Leite, Júnior Guari e Margarido.

A aritmética do plenário produziu um efeito imediato: a denúncia foi recebida, a Comissão Processante foi instaurada e a blindagem política que até então protegia a prefeita sofreu sua primeira rachadura visível. Não se trata de condenação antecipada, mas também não é um gesto simbólico. A abertura de uma CP não é um evento trivial. Ela inaugura um procedimento formal, com prazos, oitivas, produção de provas e, ao final, um julgamento político que pode culminar na cassação do mandato. É o instrumento mais severo de fiscalização que o Legislativo municipal possui.

O clima no plenário refletiu a tensão do momento. Os vereadores que votaram contra a abertura da Comissão não enfrentaram apenas o constrangimento político de se posicionar contra a investigação. Enfrentaram também a reação direta da população presente. As vaias ecoaram no plenário como um termômetro do desgaste. Não foram vaias ensaiadas, nem organizadas por grupos partidários. Foram espontâneas. Vieram de munícipes que acompanharam a sessão, ouviram a denúncia e esperavam, no mínimo, que ela fosse apurada. A reação popular não absolve nem condena, mas revela algo que a classe política costuma ignorar: a paciência social tem limite.

A composição da Comissão Processante também carrega simbolismo político e institucional. A presidência ficou com o vereador Júlio Ataíde. A relatoria coube ao vereador Marinho. E a vereadora Val Santos foi definida como membro. Não é um detalhe menor. A CP será formada por representantes de diferentes espectros partidários, o que, em tese, reduz o discurso fácil de perseguição política unilateral. A investigação alcançará, segundo a própria denúncia, fatos que envolvem diretamente a atuação de agentes públicos e decisões administrativas tomadas no núcleo do governo.

Não por acaso, três nomes aparecem desde o início como foco central da apuração: a vereadora Val Santos, do Progressistas; o vereador Júlio Ataíde, do PL; e o vereador Marinho. São figuras que, por diferentes razões, orbitam o centro do poder político local e que agora terão seus atos, vínculos e eventuais responsabilidades analisados sob a lupa de um processo formal. A CP não investiga intenções, mas fatos. E fatos, quando colocados sob investigação institucional, costumam produzir efeitos que extrapolam os autos.

A prefeita Adriana Duch chegou ao cargo sob o discurso da “nova política”, da ruptura com práticas antigas e da promessa de uma gestão técnica, eficiente e transparente. Treze meses depois, o cenário é outro. O que se vê é uma administração acuada por denúncias, pressionada por decisões judiciais, confrontada por relatórios de órgãos de controle e agora submetida ao mais duro mecanismo de fiscalização do Legislativo. Não é pouca coisa. A Comissão Processante não surge do nada. Ela é o resultado de um acúmulo de conflitos, omissões, decisões controversas e uma relação cada vez mais desgastada entre o Executivo e a Câmara.

A denúncia que deu origem à CP não se apoia em conjecturas vagas. Ela elenca, de forma sistemática, supostos descumprimentos de leis municipais, uso indevido de recursos vinculados, banalização de dispensas de licitação, desrespeito a decisões judiciais, omissão no atendimento a requerimentos legislativos e negligência na defesa do patrimônio público. São acusações graves, que exigem investigação igualmente séria. Arquivar sumariamente um documento desse porte seria, no mínimo, um desrespeito ao papel fiscalizador da Câmara.

A reação de parte dos vereadores contrários à CP tenta reduzir o episódio a uma disputa política. É uma leitura confortável, mas incompleta. Toda Comissão Processante é, por definição, um ato político. Mas isso não a transforma automaticamente em perseguição. O que define a legitimidade de uma CP não é a simpatia ou antipatia pelo investigado, mas a existência de fatos que justifiquem apuração. E o plenário, por maioria, entendeu que esses fatos existem.

O argumento da estabilidade institucional também foi invocado nos bastidores para defender o voto contrário à investigação. Trata-se de um raciocínio invertido. A verdadeira instabilidade nasce quando instituições deixam de cumprir suas funções por conveniência política. A Câmara não desestabiliza o município ao investigar a prefeita. Ao contrário: ela cumpre sua missão constitucional de fiscalizar o Executivo. O que desestabiliza é a suspeita permanente sem apuração, a denúncia sem resposta, o silêncio institucional diante de questionamentos legítimos.

A abertura da Comissão Processante não significa que Adriana Duch será cassada. Significa que ela terá de responder, formalmente, às acusações que pairam sobre sua gestão. Terá direito ao contraditório, à ampla defesa e à produção de provas. É assim que funciona o Estado de Direito. Mas também significa que, pela primeira vez, a prefeita deixa de controlar a narrativa sozinha. A partir de agora, cada ato administrativo relevante, cada decisão sensível e cada resposta — ou ausência dela — será observada à luz de um processo em curso.

O impacto político da CP já é perceptível. Vereadores que até ontem evitavam críticas mais duras agora adotam um discurso cauteloso. Secretários municipais operam sob tensão. A base governista, antes coesa, revela fissuras. A oposição, por sua vez, assume o risco de ser cobrada não apenas por denunciar, mas por provar. A Comissão Processante não é um palco para discursos inflamados. É um ambiente técnico-político onde a inconsistência cobra seu preço.

O episódio desta sessão ficará registrado como o momento em que a Câmara decidiu deixar de ser espectadora e assumiu o protagonismo que a Constituição lhe atribui. A leitura integral da denúncia, a votação nominal e a reação do público compõem um retrato fiel do estágio atual da política local: desconfiada, tensionada e em busca de respostas. Não se trata de linchamento político, mas de investigação institucional. Confundir as duas coisas é um erro conveniente para quem prefere a inércia.

A Comissão Processante começa seus trabalhos sob os holofotes. Cada passo será acompanhado pela população, pela imprensa e pelos próprios vereadores. Não há espaço para encenação. Se a denúncia for frágil, cairá por seu próprio peso. Se for consistente, produzirá consequências. O que não era mais aceitável — e o plenário deixou isso claro — era fingir que nada estava acontecendo.

Itapeva entrou, oficialmente, em uma nova fase de seu ciclo político. Uma fase em que o discurso já não basta e em que a permanência no poder depende menos da retórica e mais da capacidade de explicar atos, escolhas e omissões. A primeira Comissão Processante contra Adriana Duch não é o fim da história. É o início de um capítulo que, gostem ou não os protagonistas, será escrito sob o olhar atento da população e o rigor das instituições.

E, na política, quando a blindagem racha, raramente ela volta a ser a mesma.

 

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