Política

Prefeita esclarece repercussão da fala de Generci Neves e nega isolamento institucional

A política municipal de Itapeva entrou, nos últimos dias, em um daqueles momentos que raramente são produto de um fato isolado. O que se vê é o transbordamento de uma crise que vinha sendo gestada em silêncio e que, agora, ganha forma pública, palavras duras e versões conflitantes. De um lado, o vice-prefeito eleito, Generci Neves, rompe com a prefeita Adriana Duch por meio de uma carta aberta, denunciando isolamento, esvaziamento político e impedimento material para o exercício de suas funções. Do outro, a chefe do Executivo reage, atribuindo o impasse à recusa do vice em integrar a estrutura administrativa e sugerindo a existência de interesses políticos ocultos por trás da ruptura.

A narrativa de Generci é, essencialmente, a de quem se vê transformado em peça decorativa de um governo que prometeu colegialidade e entregou centralização. Segundo ele, o afastamento não foi simbólico: foi concreto, administrativo e institucional. A inexistência de gabinete, a ausência de participação em decisões e a impossibilidade de contribuir com políticas públicas seriam, na sua leitura, sinais de que o compromisso firmado nas urnas foi abandonado logo no primeiro dia útil de mandato. Não se trata, portanto, apenas de vaidade ferida, mas de um questionamento sobre a própria lógica democrática de um Executivo que neutraliza a figura do vice quando ela deixa de ser conveniente.

A resposta de Adriana Duch, por sua vez, é direta e politicamente calculada. Para a prefeita, não houve exclusão, mas opção. O vice teria sido convidado a assumir a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, com estrutura, equipe e atribuições claras, e teria recusado. Ao fazê-lo, segundo ela, escolheu permanecer fora do núcleo decisório e, ainda assim, continuar recebendo remuneração sem produzir resultados concretos para a cidade. A crítica é dura: não se pode, afirma a prefeita, reivindicar protagonismo sem aceitar responsabilidade. E mais: insinua que a ruptura não é espontânea, mas articulada por grupos políticos interessados em desestabilizar o governo.

O embate revela uma questão mais profunda do que a disputa pessoal entre dois agentes públicos. Ele expõe a fragilidade institucional do cargo de vice-prefeito no Brasil, frequentemente reduzido a uma expectativa sucessória e não a uma função de coadministração. A Lei Orgânica, como bem lembrado por Generci, pouco protege o exercício efetivo do cargo. E a prática política, como sugere Adriana, frequentemente condiciona a participação do vice à sua submissão à estrutura definida pelo titular do Executivo. Nesse modelo, colaboração vira concessão; autonomia, insubordinação.

Há, contudo, uma contradição que precisa ser enfrentada com honestidade intelectual. Se o vice é apenas um “reserva constitucional”, como sugere a prefeita, por que convidá-lo a assumir uma secretaria como condição tácita de participação política? E, por outro lado, se lhe foi oferecida uma pasta estratégica, por que recusá-la, sabendo que fora dela o espaço institucional é, historicamente, exíguo? Ambas as posturas, cada uma a seu modo, revelam uma política que ainda confunde governo com grupo e administração com alinhamento pessoal.

A retórica utilizada também merece atenção. Quando a prefeita afirma que “quem não trabalha não está neste barco” e associa a crítica à tentativa de “acabar com a imagem da prefeitura”, desloca o debate da esfera administrativa para o campo moral. O dissenso passa a ser tratado como sabotagem. Já o vice, ao falar em “gestão distante” e “deterioração política”, sugere que o problema não é apenas de método, mas de direção. Entre um discurso que exige obediência e outro que reivindica participação, Itapeva assiste a um duelo que pouco dialoga e muito acusa.

No fim, o que está em jogo não é a biografia política de Generci Neves nem o projeto administrativo de Adriana Duch, mas a capacidade da cidade de construir um governo que tolere divergências sem transformar o contraditório em inimigo. A democracia municipal não se mede pela ausência de conflitos, mas pela forma como eles são administrados. Quando o vice é silenciado ou quando o prefeito é sistematicamente deslegitimado, perde-se o equilíbrio institucional. E, nesse cenário, a maior derrotada não é uma pessoa, nem um grupo, mas a própria Itapeva, que segue refém de uma política que ainda resiste a amadurecer.

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