Um vice sem voz e sem vez
Itapeva assiste a uma ópera bufa do poder municipal. O vice-prefeito Generci Neves, outrora parceiro de chapa da atual prefeita Adriana “Coronel” Duch, hoje parece ocupar um cargo meramente decorativo. Em carta aberta endereçada à população, Generci denunciou que foi afastado de quaisquer funções administrativas, reduzido a espectador de um governo que ajudou a eleger. Segundo o próprio vice, não há diálogo algum com a prefeita, e as promessas de campanha evaporaram no ar assim que a dupla assumiu a prefeitura em 2025. O relacionamento pessoal e político entre prefeita e vice tornou-se “praticamente inexistente” depois da posse, quando Duch passou a governar cercada de “assessores duvidosos” e isolou seu vice do gabinete. Em outras palavras, Generci descobriu que, em Itapeva, vice-prefeito é igual àquele estepe de carro: só é lembrado quando tudo está furado.
A denúncia pública de Generci Neves não caiu do céu – já era
um segredo mal guardado nos bastidores que a parceria se desfez logo nos
primeiros meses de governo. Em eventos sociais, como em um arraiá junino,
vereadores teriam até sondado Generci sobre a hipótese de impeachment da
prefeita Adriana Duch. O vice-prefeito, desconcertado, desconversou sobre o
assunto, mas deixou nas entrelinhas que sua sintonia com a chefe do Executivo
inexiste. Mesmo assim, ele também não parece disposto a liderar qualquer
reação: “é bom sujeito, mas não é do ramo”, resumem com ironia. Ou seja,
Generci pode até ter a faixa de vice, mas lhe faltaria apetite (ou cacife) para
entrar nesse jogo pesado. Resta-lhe então gritar por escrito: sua carta aberta
soa como um desabafo de quem se vê vice-prefeito de enfeite, pregando no
deserto contra o isolamento que sofre dentro do próprio governo.
A gestão de Adriana Duch segue cada vez mais fechada em si
mesma, num isolamento político impressionante para quem prometeu “união” e
“mudança” na campanha. Relatos apontam que a prefeita vive trancada em seu
gabinete, rodeada apenas por um círculo íntimo de assessores, alheia às vozes
dissonantes. Diálogo institucional virou artigo de luxo: nem o vice-prefeito é
recebido, nem os vereadores são ouvidos. A Secretaria de Relações
Institucionais da Prefeitura praticamente não faz jus ao nome – vereadores reclamam
que nenhuma pauta pendente é tratada com diálogo produtivo entre Executivo e
Câmara. O resultado é um governo ensimesmado, incapaz de construir pontes com
os outros poderes e com a sociedade. A prefeita prefere refugiar-se em reuniões
a portas fechadas e sessões intermináveis de coffee break, enquanto a cidade lá
fora clama por soluções.
As promessas de campanha de Adriana Duch se dissiparam no ar
rarefeito desse isolamento. A “nova política” e a gestão eficiente ficaram só
no palanque. Em vez de transparência e participação popular, o que se vê é um
governo de portas cerradas, fechado em copas. A prefeita, que se elegeu com
discurso de ruptura, repete agora velhas práticas que jurou combater. Exemplos
não faltam: Duch vetou uma lei municipal antiparentela que proibia nomear
parentes em cargos públicos – tentativa de barrar o nepotismo – e só cedeu
depois que a Câmara Municipal derrubou seu veto e expôs o caso. Foi preciso uma
lei para obrigá-la a afastar uma secretária (da Saúde, vejam só) enquadrada
pelas novas regras de nepotismo. E pensar que, em campanha, a promessa era de
profissionalizar a administração e nomear apenas técnicos competentes... Mais
uma promessa descumprida.
No palanque, Adriana Duch também prometera austeridade
fiscal e melhorias visíveis na cidade. Na prática, porém, o governo patina:
dinheiro curto e prioridades tortas. A situação financeira de Itapeva entrou em
estado crítico, a ponto de a prefeita propor a criação de uma impopular “taxa
do lixo” e buscar empréstimos milionários para fechar as contas. Vale lembrar
que na campanha o discurso era de fazer mais com menos, sem “colocar a mão no
bolso do contribuinte”. Não por acaso, a expressão “crise financeira e descaso”
foi entoada numa sessão da Câmara que colocou Duch na fogueira, revelando para
todos os vereadores (e cidadãos atentos) o tamanho do rombo nas contas
municipais. Em suma, o cofre está vazio e a paciência do povo, esgotada. Aquela
velha ladainha de culpar gestões passadas pelo caos atual já não convence mais
ninguém. Como bem friso nos editoriais, o governo Duch assumiu com problemas
sim, mas seu dever é resolvê-los em vez de buscar muletas no passado. Depois de
um ano de mandato, já não cola jogar tudo na conta do antecessor – a
incompetência presente fala por si.
Adriana Duch chegou a afirmar, em tom pretensioso, que “o
pouco que seria feito saltaria aos olhos” da população – sugerindo que, mesmo
com recursos escassos, ela realizaria grandes feitos. Hoje, a frase virou piada
amarga nas ruas: a prefeita não consegue entregar nem o mínimo do prometido.
Saltar aos olhos, de fato, só saltam os problemas escancarados por toda parte.
Onde Itapeva esperava uma gestora incansável, ganhou uma administradora
ausente, encastelada e sem palavra.
Um dos indicadores mais dramáticos da gestão Adriana Duch
está na saúde pública. A Santa Casa de Itapeva vive sob perene crise financeira
e operacional – situação que se agravou a ponto de a Câmara Municipal instaurar
debates emergenciais para escancarar a realidade do hospital. Faltam recursos,
faltam médicos, e faltam até remédios básicos para a população. Diversos
pacientes têm denunciado desabastecimento de medicamentos essenciais e de alto
custo há meses, sem que a Prefeitura apresente solução. O descaso chegou ao
ponto de doentes crônicos recorrerem a “vaquinhas” (coletas de dinheiro) entre
amigos e familiares para comprar remédios que deveriam estar disponíveis na
rede municipal. Enquanto isso, a Secretaria de Saúde parece paralisada, e as
reclamações dos vereadores sobre a situação caótica não surtem efeito algum.
O episódio das ambulâncias é emblemático do deterioramento
da saúde municipal. Boa parte da frota ficou parada por falta de manutenção, ao
mesmo tempo em que a Prefeitura contratou ambulâncias locadas a preços
exorbitantes, muito acima do valor de mercado. Uma denúncia revelou que, em
certos casos de emergência, a própria Prefeitura chegou ao cúmulo de
terceirizar o transporte de pacientes graves para motoristas de aplicativo –
uma situação surreal que expõe a precariedade do SAMU e dos serviços de urgência.
Onde foi parar o dinheiro dessas locações estapafúrdias? A Câmara já colheu
informações suficientes para pedir uma Comissão de Inquérito sobre os contratos
de ambulâncias, porque algo claramente cheira mal nessa história. Aliás,
cheirar mal virou rotina: faltam ambulâncias e também falta gestão. O governo
municipal alega dificuldade financeira para tudo, mas, a velha desculpa da
falta de dinheiro não cola mais – o que se vê é pura ineficiência
administrativa.
Some-se a isso o caso assombroso ocorrido em uma unidade de
saúde: animais mortos congelados encontrados em freezer de UBS – um episódio
que chocou moradores e motivou investigação dos órgãos competentes. A cena
macabra parece alegoria perfeita de uma saúde municipal congelada, sem comando
e sem compaixão. Não por acaso, Itapeva ficou de fora até mesmo de
projetos-piloto de vacinação contra dengue no estado, possivelmente por não
atender critérios ou prazos – mais um indicador de falha administrativa que
deixa a população vulnerável.
No setor de educação, a realidade desafia o marketing
oficial. Reportagens revelaram uma série de problemas de infraestrutura nas
escolas municipais, especialmente de educação infantil, com reclamações de pais
e funcionários sobre a precariedade das instalações e atendimento deficitário
aos alunos. Há creches com infiltrações, falta de materiais básicos e até
situações insólitas, como um depósito da Secretaria de Educação flagrado com
dezenas de focos de dengue no pátio. Funcionários ociosos – porque não havia
transporte para levá-los aos locais de trabalho – foram encontrados nesse
depósito, enquanto as creches careciam de mão de obra para limpeza. Ou seja,
desorganização total: gente parada onde não devia, e serviço parado onde não
podia. A Secretaria Municipal de Educação, instada a responder, permaneceu em
silêncio obsequioso, sem dar satisfação às denúncias ou às reivindicações de
mães e professores por melhores condições. O resultado é que o problema se
agrava a cada dia, sem resposta nem plano de ação – mais uma área entregue à
própria sorte.
Até a merenda escolar entrou na lista de vexames da gestão.
Pais e educadores se queixam da baixa qualidade dos alimentos fornecidos nas
escolas, ao ponto de muitas crianças estarem levando lanche de casa para
conseguir comer direito. A situação piorou após um imbróglio na transição do
contrato de merenda entre Estado e município, e hoje a alimentação escolar de
Itapeva virou sinônimo de improviso. Enquanto isso, em doloroso contraste, os
secretários municipais ostentam seus altos salários frequentando restaurantes
da moda, onde almoçam pratos caros regados a carne de primeira e cervejas
artesanais. Os poderosos do governo,
filé mignon; para o povo, quando muito, pão amanhecido. Essa é a triste
metáfora da gestão Duch: poucos privilegiados desfrutam do melhor, enquanto a
maioria pena com serviços públicos de segunda categoria. Até o “cafezinho” dos
simples mortais foi vetado – talvez numa economia porca que corta o básico do
povo, mas preserva o supérfluo dos altos escalões.
No campo das obras públicas e infraestrutura urbana, o
cenário é igualmente desolador. Ruas esburacadas, obras paradas e um acúmulo de
lixo urbano compõem a paisagem cotidiana de Itapeva. O serviço de coleta de
lixo se tornou imprevisível: atrasos constantes e veículos quebrados viraram
praxe, espalhando sujeira pela cidade. A Prefeitura não consegue sequer
coordenar a manutenção dos caminhões de coleta ou planejar rotas alternativas,
e a cidade sofre com calçadas e canteiros tomados por sacos de lixo rasgados.
De tanto esperar, Itapeva ganhou apelidos malcheirosos – uma “cidade
fedorenta”, infestada de focos de dengue e urubus atraídos pelos monturos de
lixo. O caos chegou a tal ponto porque, pasmem, a prefeita esvaziou as funções
do secretário responsável pela limpeza urbana: por decreto, transferiu os
poderes dele para o procurador-geral do município e para o secretário de
Relações Institucionais, deixando o titular da pasta como um figurehead, um
gerente operacional sem autonomia. O resultado dessa trapalhada burocrática
está à vista (e ao olfato) de todos: coleta de lixo colapsada e espaços
públicos imundos, num verdadeiro convite a pragas e doenças. É a
institucionalização da incompetência – e mais um paralelo incômodo com a
situação do vice-prefeito: assim como fez com esse secretário, a
coronel-prefeita esvaziou também o cargo de vice, que hoje não apita nem na
escolha do sabor do cafezinho do gabinete.
Se alguma coisa saltou aos olhos da população, foi
justamente a incapacidade da gestão atual em cuidar do básico. A pavimentação
asfáltica, por exemplo, virou motivo de chacota: consertos mal feitos
literalmente afundam poucos meses depois de prontos, como ocorreu na Avenida
Paulina de Moraes, que cedeu novamente semanas após um reparo “meia-boca” feito
às pressas. Buracos icônicos já viraram pontos de referência na cidade – como o
cratera em frente ao posto Zanforlin, que está há tanto tempo sem manutenção
que a piada local é dar nome de batismo ao buraco. A situação remete à fábula
da administração atolada: para cada problema crônico (seja o asfalto que cede,
o mato que toma conta de praças, ou a histórica paineira bicentenária que
apodrece sem cuidados), a resposta do governo Duch é a mesma: nenhuma. Os
secretários responsáveis estão, como se diz, de braços cruzados há meses. E a
prefeita, em vez de cobrar resultados, prefere ignorar. Afinal, ela raramente
sai da bolha do gabinete a não ser para alguma foto oportunista em ação
simbólica – como a varrição de rua para as câmeras, enquanto seus subalternos
continuam na sombra, sem trabalhar de fato.
Diante de tamanho descalabro administrativo, a classe
política local se mexe – ainda que timidamente – para dar uma resposta. Na
Câmara Municipal, até os vereadores da base aliada começaram a admitir
publicamente a insatisfação generalizada da população com o governo Duch. Os
discursos em plenário subiram de tom: não faltam adjetivos como “desgoverno”,
“paralisação administrativa” e “caos instaurado” nas falas dos parlamentares
mais indignados. Alguns vereadores, antes fiéis escudeiros da prefeita, agora
precisam se explicar à população. Recentemente, um aliado de Duch tentou
defender medidas impopulares (como a instalação de parklets privilegiando um
bar frequentado por figurões da Prefeitura) com justificativas estapafúrdias, e
acabou desmoralizado pelos próprios colegas. As sessões têm sido palco também
de piadas e comentários mordazes sobre certos secretários e vereadores virarem
motivo de chacota por apoiar cegamente o Executivo. A paciência política se
esgotou, e a “batalha de narrativas” entre prefeita e legislativo já ocorre a
céu aberto, com direito a acusações mútuas e muita tensão.
Há quem aposte que o rompimento oficial entre Adriana Duch e
Generci Neves seja apenas a ponta do iceberg – um sintoma de um governo que
desmorona por dentro. Lideranças regionais observam perplexas o desenrolar
dessa crise: Itapeva, município estratégico no sudoeste paulista, agora é vista
como um caso de administração à deriva. Nos bastidores, comenta-se que a
cassação da prefeita deixou de ser tabu. A movimentação para investigar a fundo
o Executivo já começou: os vereadores articulam a abertura de Comissões
Especiais de Inquérito (CEIs) para apurar contratos suspeitos, favorecimentos e
omissões da atual gestão. Alguns já falam em acionar o Ministério Público para
investigar eventuais improbidades – afinal, a quantidade de escândalos e
denúncias (nepotismo, contratos irregulares, negligência com dinheiro público)
só cresce.
Enquanto isso, a prefeita tenta contra-atacar no campo
político. Em entrevistas recentes, Adriana Duch nega qualquer racha com seu
vice – chegou a declarar que se Generci está ausente é por “compromissos
particulares” e não por falta de convite. Mas é difícil convencer alguém disso
quando o próprio vice veio a público desmentir tal versão, descrevendo seu
completo isolamento dentro da Prefeitura. Também não ajuda a prefeita o fato de
seu governo atacar a imprensa local sempre que uma notícia negativa ganha repercussão.
Num episódio notório, Duch e seus secretários passaram a hostilizar jornais e
rádios após críticas sobre problemas em bairros da cidade, numa tentativa
desastrada de “matar o mensageiro” em vez de resolver a mensagem – isto é, os
problemas apontados. Essa postura beligerante apenas reforça o distanciamento
em relação à população e às instituições democráticas.
No meio desse tiroteio verborrágico, Generci Neves – outrora
vice e companheiro de palanque – agora emerge como voz dissonante, ainda que
tardia, da administração. Sua carta aberta foi bem recebida por parte da
opinião pública, que enxergou nas palavras do vice-prefeito eco de suas
próprias frustrações. Lideranças comunitárias e alguns ex-aliados do governo
manifestaram apoio ao vice por “tirar a máscara” do que estaria ocorrendo nos
corredores do Paço Municipal. Outros, mais céticos, lembram que Generci foi
cúmplice silencioso por muito tempo e só resolveu falar quando a situação se
tornou insustentável. De qualquer forma, o rompimento é fato consumado e seus
reflexos sacudiram o cenário político local. Itapeva caminha para as próximas
eleições municipais com um governo esfacelado internamente: de um lado, uma
prefeita isolada, desgastada e sob fogo cruzado; de outro, um vice-prefeito sem
funções que tenta salvar sua biografia se desvencilhando do naufrágio.
A crônica dessa crise itapevense beira o inacreditável. Em
pleno 2026, Itapeva ganhou uma “República do Faz de Conta”, onde o
vice-prefeito descobre que seu cargo é cenário, os secretários viram nobres de
banquete alheios à miséria administrativa, e a prefeita-governante vive num
mundo à parte, como se a cidade real não existisse. Enquanto isso, nas ruas,
acumulam-se lixo, buracos, reclamações e decepções. O eleitor de Itapeva,
traído em suas expectativas, assiste a um triste espetáculo de promessas rasgadas.
A sensação de abandono é generalizada.
Augusto Nunes certa vez escreveu que algumas gestões são tão
desastrosas que rendem mais sátiras do que elogios – e este parece ser o caso
em pauta. Com sarcasmo e um fio de tristeza, podemos dizer que Itapeva vive a
sua pior temporada de realismo fantástico: há freezers com animais congelados
em posto de saúde, mas não há remédios nas prateleiras; há coronel na cadeira
de prefeita, mas falta comando na cidade; há vice-prefeito no papel, mas não há
vice em ação. A analogia militar é irresistível: a Coronel Duch comanda um
quartel-general vazio, onde soldados rasos (leia-se: população, servidores
comprometidos) não recebem ordens claras, e generais (leia-se: secretariado)
agem por conta própria – alguns, inclusive, atirando no próprio pé do governo
com suas trapalhadas.
No fim das contas, a Itapeva de 2026 serve de alerta sobre
os perigos do personalismo e do isolamento no poder. Uma gestão que despreza o
diálogo e suprime a colaboração – até do próprio vice – tende a definhar, refém
de seus erros. Resta saber se, após essa carta aberta bombástica, haverá alguma
correção de rumos ou se o governo Duch continuará fingindo normalidade enquanto
o barco faz água. Os itapevenses já demonstram impaciência: a cada dia que o
lixo não é coletado, que a escola não melhora, que a saúde segue no caos, o
relógio político de Adriana Duch vai tic-tac, tic-tac acelerando rumo a um
desfecho possivelmente inglório. E Generci Neves, o vice sem função, aguarda no
camarote dos descontente – quem sabe pronto para assumir a bronca, quem sabe
apenas para assistir à queda do palco. Em Itapeva, a crônica da crise segue
aberta, escrita dia após dia nas ruas e nos corredores do poder. A população,
essa sim, espera por um final menos amargo para essa história – de preferência,
com serviços públicos dignos e respeito às promessas feitas. Por ora, fica a
lição: vice-prefeito não é enfeite, promessas importam e, cedo ou tarde, a
realidade cobra a conta com juros e correção. Itapeva que o diga.

Deixe um comentário