A dívida, as máquinas e o espelho da cidade
A postagem era simples, quase banal: a Câmara de Itapeva
havia barrado um empréstimo de R$ 20 milhões pretendido pela Prefeitura para a
compra de máquinas. Logo abaixo, a pergunta direta, sem rodeios: você é a favor
ou contra? Bastou isso para que a cidade, essa entidade difusa feita de ruas,
humores e ressentimentos acumulados, resolvesse falar. E falou alto.
Não foi um debate técnico, desses cheios de números,
planilhas e termos de economês. Foi algo mais cru. Mais próximo daquilo que
realmente move as pessoas quando o assunto é poder público: a sensação
cotidiana de abandono, de promessa não cumprida, de máquina parada no pátio
enquanto a estrada da zona rural vira um corredor de buracos. Para muitos, o
problema não estava no valor do empréstimo, mas na descrença absoluta em quem o
administraria.
“A favor”, disse um, quase solitário, como quem levanta a
mão numa sala silenciosa. Em seguida, vieram os relatos que dispensam
estatística. Máquinas paradas, demandas empilhadas, justificativas repetidas. O
discurso de quem já ouviu demais que “não dá”, que “falta recurso”, que “a
demanda é grande”. Para esses, não é a ausência de equipamentos que trava a
cidade, mas a ausência de gestão. Comprar mais, nesse contexto, soa como
empurrar móveis novos para dentro de uma casa com o telhado caindo.
Outros tentaram ampliar o horizonte. Falaram de grandeza, de
pensar Itapeva como potência regional, de enxergar os R$ 20 milhões como pouco
diante de um orçamento anual robusto. Dívida, disseram, se administra.
Investimento não é pecado. O problema, talvez, não seja o empréstimo, mas o
medo crônico de crescer, essa vocação quase interiorana para a desconfiança
permanente. Para esses, barrar o projeto seria apequenar a cidade por receio,
por disputa política, por birra.
Mas logo o contraponto veio afiado. Não, Itapeva não fatura
isso tudo. Antes de pedir dinheiro emprestado, que se corte cargos, que se
reduza o inchaço da máquina pública, que se crie uma equipe de manutenção
decente para cuidar do que já existe. Que se troquem secretários, que se use o
bom senso. O empréstimo, nessa leitura, vira atalho preguiçoso de quem não
consegue arrumar a própria casa.
A política, como sempre, apareceu pelo canto da conversa,
mesmo quando ninguém a chamava pelo nome. Houve quem enxergasse amizade,
oposição, interesses cruzados. Houve quem lembrasse que a prefeita havia dito
ter pago dívidas herdadas. Se pagou, por que agora pedir mais? Se o discurso
era de responsabilidade, por que recorrer ao crédito? A memória coletiva, ainda
que imprecisa, cobra coerência com uma crueldade que discurso nenhum consegue
driblar.
O tom foi ficando mais duro. Superfaturamento. Incapacidade
administrativa. Mato alto, lixo espalhado, saúde em colapso. O empréstimo, para
muitos, deixou de ser um instrumento financeiro e passou a simbolizar algo
maior: a sensação de que a cidade não anda, de que os problemas se acumulam
enquanto as soluções ficam sempre para depois — ou para a próxima gestão, ou
para o antecessor, que vira uma entidade conveniente para carregar culpas
eternas.
Curiosamente, quase ninguém falou de máquinas. Falou-se de
confiança. Ou melhor, da falta dela. Porque, no fundo, a pergunta nunca foi
sobre R$ 20 milhões. Foi sobre acreditar ou não que esse dinheiro, se viesse,
mudaria de fato a vida de quem mora na ponta da estrada de terra, de quem
convive com o mato alto, de quem espera atendimento na saúde pública. Foi sobre
acreditar que o erro do passado não se repetiria com uma assinatura nova.
E talvez por isso o “contra” tenha ecoado tantas vezes,
quase em coro. Não por apego ideológico, não por aversão automática à dívida,
mas por cansaço. Cansaço de ouvir que agora vai, que dessa vez é diferente, que
basta mais um recurso, mais um prazo, mais um projeto. A cidade, desconfiada,
prefere o freio ao risco, mesmo sabendo que ficar parado também cobra seu
preço.
No fim das contas, a publicação virou um espelho. Um reflexo
desconfortável de uma Itapeva dividida entre o desejo de crescer e o medo de
ser enganada outra vez. Entre a ambição de potência regional e a experiência
concreta de uma gestão que, aos olhos de muitos, ainda não mostrou a que veio.
A Câmara barrou o empréstimo, mas o debate segue aberto — não nos gabinetes,
mas nos comentários, nas ruas, nas conversas de esquina. Porque dívida se
administra, dizem alguns. Mas confiança, quando quebrada, demora muito mais
para ser reconstruída.

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