Após vitória histórica de Dr. Marcelo Poli no Tribunal de Justiça, vereadores cobram gestão e criticam colapso da saúde em Itapeva
Decisão do TJSP restabelece lei que fixa prazos máximos para
consultas, exames e cirurgias; sessão da Câmara evidencia falhas
administrativas, perda de recursos e crise crescente na rede municipal
A sessão desta segunda-feira, 1 de dezembro, da Câmara Municipal de Itapeva
surpreendeu pelo tom firme, pela densidade dos debates e pela centralidade do
tema que dominou cada discurso: a saúde pública. O ponto de virada que pautou
praticamente toda a reunião foi a vitória jurídica conquistada pelo vereador Dr.
Marcelo Poli, cujo projeto — transformado na Lei nº 5.280 — havia sido suspenso
por uma liminar solicitada pela Prefeitura, mas foi completamente restabelecido
após decisão unânime dos desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo. A
lei determina prazos máximos para o atendimento no SUS municipal, fixando
datas-limite para consultas especializadas, exames e cirurgias, em um modelo
semelhante ao que as operadoras de convênio já são obrigadas a cumprir. Foi
essa conquista, inédita para o município e rara no cenário estadual, que
motivou os parlamentares a traçar um raio-x direto, técnico e crítico da
situação da saúde pública em Itapeva.
No plenário cheio, onde atletas do vôlei adaptado,
servidores da educação, moradores de diversos bairros e lideranças comunitárias
acompanhavam atentamente cada fala, Marcelo Poli foi categórico ao relembrar a
trajetória de seu projeto. Mencionou que enfrentou resistência desde a
apresentação inicial, passando por pareceres jurídicos negativos e pela própria
ação do Executivo que buscou derrubar a medida nas instâncias superiores. A
resposta do Tribunal foi, porém, devastadora para os argumentos da Prefeitura:
todos os 25 desembargadores reconheceram a constitucionalidade e a relevância
da lei, afirmando que o município tem a obrigação de garantir prazos razoáveis
para o atendimento em saúde. O vereador definiu o resultado como uma vitória do
povo e um marco na defesa da dignidade humana. “Ninguém pode morrer esperando
exame. Ninguém pode perder emprego esperando cirurgia. Ninguém pode ficar meses
sem saber quando será atendido por um especialista. A partir de agora, isto é
lei em Itapeva”, afirmou durante a sessão.
A fala mais emocionada — e talvez a mais simbólica — veio da
vereadora Áurea Rosa, que enfrenta um tratamento contra o câncer e relatou o
drama de quem depende de exames frequentes, retornos médicos e acompanhamento
constante. Áurea contou episódios em que aguardou horas mesmo sendo usuária de
plano particular, lembrou da dificuldade de pacientes em Sorocaba e São Paulo,
e destacou que a cidade possui uma estrutura de radioterapia pronta, mas
inoperante há mais de um ano, obrigando pacientes fragilizados a viajarem
longas distâncias. Sua declaração chamou atenção pela sinceridade: se a lei de
Marcelo for de fato implementada, ela apoiará o vereador em qualquer projeto
futuro. O plenário assistiu em silêncio respeitoso, como se reconhecesse
naquelas palavras a síntese de uma dor coletiva.
O debate sobre a saúde pública se entrelaçou rapidamente com
críticas profundas à gestão da prefeita Adriana Duch. O vereador Tarzan
foi direto ao apontar que a Administração Municipal vive um colapso financeiro
agravado pela queda de aproximadamente R$ 15 milhões no repasse do ICMS
previsto para o próximo ano. Ele explicou que a perda ocorreu por falhas do
próprio Executivo na manutenção dos índices exigidos pelo Governo do Estado, o
que comprometeu o cálculo final do imposto. Ao relacionar esse cenário com
gastos elevados em contratos considerados mal estruturados, Tarzan afirmou que
a saúde sofre hoje porque as prioridades do governo estão distorcidas. Ele
citou a tarifa zero firmada anteriormente sem licitação e sem base legal,
contratos de aluguel com valores considerados incompatíveis com o orçamento
municipal e serviços terceirizados que, segundo ele, poderiam custar muito
menos se fossem administrados com eficiência. “Não existe almoço grátis. Quando
o governo erra, a população paga. E neste momento paga com a própria saúde”,
disse.
A crítica à condução administrativa da Prefeitura foi
reforçada por outros vereadores, que apontaram atrasos em exames laboratoriais,
lentidão na regulação de cirurgias, filas para atendimento especializado e
falta de medicamentos em postos de saúde. Os relatos também mencionaram
pacientes que viajam diariamente para sessões de hemodiálise em cidades
distantes, já que Itapeva não possui cadeiras suficientes, além da estrutura de
radioterapia que permanece fechada apesar do alto investimento. Nos discursos, ficou
claro que o Legislativo vê a crise da saúde como consequência de um conjunto de
decisões equivocadas, falta de planejamento e ausência de uma equipe técnica
capaz de conduzir as políticas públicas de maneira eficiente.
Mesmo com o clima crítico, a sessão teve um momento de
respiro com a homenagem prestada à técnica esportiva Gisele Nicasso, que
conquistou aplausos calorosos e emocionados ao receber o voto de congratulações
proposto pelo vereador Robson Leite. Gisele, referência do vôlei adaptado na
melhor idade, está deixando o município, mas seu trabalho foi reconhecido por
vereadores de todas as bancadas como essencial para elevar o nome de Itapeva em
diversas competições. Nos bastidores, porém, até mesmo essa homenagem acabou
reforçando um ponto recorrente da sessão: o orçamento do esporte, que já era
insuficiente, foi reduzido pela metade para 2026, o que desagrada vereadores e
preocupa atletas. A fala de Robson foi seguida pelas de Júlio Ataíde e Vanderlei
Pacheco, que ressaltaram a importância do esporte como ferramenta de saúde
preventiva e inclusão, lamentando que a Prefeitura não dê à área a atenção que
merece.
O encerramento da noite deixou evidente um sentimento comum
entre os parlamentares: a Câmara está disposta a cobrar, fiscalizar e
pressionar a Prefeitura para que a lei de Marcelo Poli seja aplicada, para que
a saúde recupere o que perdeu ao longo dos últimos anos e para que o governo
municipal deixe de lado práticas administrativas que, segundo eles, aprofundam
a crise. A impressão geral é de que a vitória jurídica de Marcelo reacendeu no
Legislativo uma postura mais combativa, reforçando a ideia de que a administração
pública precisa ser reconstruída sobre bases técnicas, financeiras e éticas.
A sessão terminou sob aplausos, mas também sob a expectativa
de um embate político que deve se intensificar nas próximas semanas. A saúde
pública, agora protegida por uma lei com força reafirmada pelo Tribunal de
Justiça, volta ao centro da agenda de Itapeva. E a cidade aguarda para ver se a
Prefeitura cumprirá as novas regras, reorganizará o sistema e responderá à
altura das críticas — e das necessidades urgentes da população.

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