Saúde em crise e IPTU em alta: vereadores enfrentam a Prefeitura em sessão tensa
A sessão da Câmara Municipal de Itapeva, realizada nesta
segunda-feira, 10 de novembro, foi marcada por críticas contundentes à gestão
municipal e por um debate tenso sobre o aumento do IPTU. Embora o encontro
tenha começado de forma protocolar, com aprovação de atas e encaminhamento de
projetos às comissões, bastaram poucos minutos para que o plenário se
transformasse em palco de cobranças, indignação e alertas sobre a condução da
administração pública municipal.
Logo no início do tema livre, o vereador Ronaldo Coquinho
expôs uma situação que gerou revolta entre os parlamentares: o Município ainda
não repassou à Santa Casa o valor referente à diferença do piso da enfermagem.
Segundo ele, a portaria federal que libera o recurso foi publicada em 29 de
outubro, e a secretária municipal de Saúde havia prometido que o dinheiro seria
transferido imediatamente após a liberação. No entanto, até o momento da
sessão, o repasse não havia acontecido. Com o contracheque dos profissionais
fechado e sem o valor previsto, a Câmara cobrou explicações. Ronaldo
classificou a situação como descaso e falta de respeito com trabalhadores
essenciais do setor da saúde. Ele afirmou que a Prefeitura assegurou que o
repasse ocorreria na sexta-feira anterior à sessão. Não aconteceu. A Santa Casa
confirmou que nenhum valor havia sido recebido.
A denúncia não parou por aí. Ronaldo relatou outro episódio
ainda mais grave: a falta de insulina na rede municipal. Uma criança de apenas
8 anos, portadora de diabetes tipo 1, ficou sem o medicamento. Diante da
urgência, vereadores organizaram uma vaquinha para comprar a insulina e
entregar à família. “Não é função do vereador comprar remédio”, declarou. “A
função do vereador é fiscalizar e cobrar da Prefeitura.” O parlamentar relatou
que, ao buscar solução junto à Secretaria de Saúde, familiares ouviram como
resposta que procurassem a Justiça. Para ele, empurrar pacientes para processos
judiciais para conseguir um medicamento essencial à vida ultrapassa qualquer
limite de razoabilidade administrativa.
Após a denúncia, o vereador Roberto Comeron apresentou uma
notícia positiva. Ele anunciou que destinou parte de sua emenda impositiva para
aquisição de ultrassons portáteis para unidades de saúde e que, após pedidos ao
deputado estadual Edson Giriboni, todos os postos do município também receberão
o equipamento. O objetivo é permitir diagnóstico imediato no próprio posto,
evitando longas filas na UPA e na Santa Casa. Comeron ressaltou que os
aparelhos permitirão que o médico avalie o paciente no momento do atendimento,
sem depender de encaminhamentos ou fila para exames. Segundo ele, isso pode
encurtar diagnósticos que hoje demoram meses. Mesmo assim, o vereador alertou
que agora cabe à Prefeitura agilizar licitação e entrega, evitando que o
equipamento chegue e fique parado por falta de execução.
Mas o maior embate da noite começou quando o tema Planta
Genérica de Valores surgiu — a nova base de cálculo do IPTU. De acordo com
Ronaldo Coquinho, a prefeita Adriana Duch apresentou inicialmente o projeto ao
Legislativo como uma medida de “justiça tributária”: corrigir valores defasados
em bairros de maior padrão. Porém, quando o texto chegou oficialmente à Câmara,
incluía todos os bairros da cidade, inclusive regiões sem pavimentação, sem
iluminação adequada, sem coleta de lixo eficiente e com recorrente falta de
água. Para o vereador, a gestão tenta votar o aumento de forma acelerada e sem
diálogo. “Prefeita, vamos com calma”, disse ele em plenário. “Se quer aumentar
imposto, entregue primeiro serviço público funcionando. Senão, é jogar a conta
para quem já paga caro e não recebe nada em troca.”
O debate acendeu ainda mais quando a vereadora Áurea Rosa
tomou a palavra. Ela afirmou que existem distorções absurdas na cobrança atual
do imposto. Disse que paga IPTU mais caro do que moradores de condomínios
fechados de alto padrão, mesmo vivendo em bairro periférico e com
infraestrutura precária. Áurea resumiu o sentimento de boa parte dos moradores:
“Dá a César o que é de César, mas não tire o meu couro.” A vereadora defendeu
que algumas regiões com alto valor venal e estrutura completa realmente precisam
de atualização de valores, mas não aceita aumento para bairros que não recebem
retorno do Município.
A resposta mais contundente veio do vereador Dr. Marcelo
Poli. Ele afirmou que existe diferença entre corrigir distorções nos bairros
ricos e aumentar o IPTU de bairros abandonados pelo poder público. Segundo ele,
é injustificável cobrar aumento de moradores que convivem com problemas
básicos, como falta de coleta regular de lixo, capinagem deficiente, falta de
medicamentos e ausência de manutenção urbana. Dr. Marcelo afirmou que a
Prefeitura quer pressa para aumentar imposto, mas não demonstra eficiência para
entregar serviços. Ele disse: “Cobrar 10%, 20%, 30% de aumento em bairros sem
infraestrutura é deslealdade com a população.” O vereador concluiu com um
desafio público: “Vamos chamar os moradores desses bairros para encher o
auditório. Quero ver se alguém está satisfeito com o serviço que recebe.”
Mesmo com o clima tenso, a sessão teve momentos
institucionais: foram aprovadas moções de aplausos a policiais militares que
salvaram a vida de um bebê de 14 dias em situação de engasgamento e homenagens
a profissionais das áreas de saúde e esporte. Ao final, foi feita a convocação
para a próxima sessão, onde o tema do IPTU deve voltar à pauta.
A noite deixou claro que a Câmara será palco de um confronto
direto entre o Executivo, que busca aprovar o aumento do imposto, e vereadores
que exigem antes a entrega de serviços públicos de qualidade. A discussão expôs
duas realidades distintas: a Prefeitura afirma que precisa arrecadar mais para
investir; já parte dos vereadores e da população questiona o porquê de pagar
mais por serviços que não estão sendo prestados. A sensação dominante é de que
a conta chegou. E agora, a pergunta que ecoa dentro e fora do plenário é: quem
vai pagar?

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