EDITORIAL — Ganhar a eleição é diferente de governar

Imaginem um mundo surreal em que a eleição municipal de Itapeva tenha sido concorrida hipoteticamente entre Lula, Jair Bolsonaro, Dilma e Marina Silva, com vitória por pequena margem de votos para Lula em face de Bolsonaro.  

Imaginem agora que de fato isso pode ter acontecido, mas com os personagens verídicos da cena política do nosso município. 

Em 2024 a eleição municipal foi definida por uma baixa vantagem de votos, havendo votos definidos por rejeição explícita ao segundo colocado no pleito. O chamado voto útil foi a arma do eleitor motivado pela rejeição a determinado candidato em 2024. Agora, o segundo fato a ser analisado: a soma de votos dos adversários da prefeita eleita é maior que sua própria votação.  

Ao contrário do que houve em 2020, quando o prefeito Mário Tassinari foi eleito com margem de 11.000 votos a mais do segundo colocado, sem que a soma dos votos dos oponentes ultrapassasse o total de sua votação eleitoral. Em resumo, em 2020 aconteceu um resultado eleitoral vitorioso de grande escala, mas que depois de cerca de dois anos de governo não resultou em manutenção da popularidade do prefeito diante do próprio eleitorado, muito menos perante os demais cidadãos que votaram em outros candidatos à época.   

A lição a ser aprendida no momento não serve ao grupo político de governo da prefeita Duch, pois como diz o ditado popular "de boas intenções até o inferno está cheio". A lição  que serve como pauta de reflexão, para população, é exatamente essa: Ganhar a eleição é diferente de governar.  

Em linhas gerais, vencer a eleição com campanha de alto nível não significa governar com competência e manutenção da popularidade. Vencer a eleição e governar são tarefas distintas, que podem ter resultados diferentes por melhores que sejam as intenções dos políticos em ambos os momentos. 

Isso nos leva a segunda consideração pertinente: O candidato a prefeito pode ter cometido estelionato eleitoral, que no jargão político serve para descrever casos onde o candidato eleito com uma determinada plataforma de projetos e promessas, após assumir o governo descumpre essa plataforma fazendo o oposto daquilo que tanto despertou a simpatia do seu eleitorado. 

De bate pronto, ainda é cedo para afirmar que a prefeita Duch nos primeiros dias de governo se encaixa nessa situação mencionada, porém os indicativos saltam aos olhos após duas semanas de uso exagerado das redes sociais em busca de criar fatos novos para desviar o foco de assuntos que estão na boca do povo.  

Os comentários populares criticando as atitudes de apoiar e sancionar o aumento de salários de secretários, de colocar marqueteiros à disposição do gabinete sem trabalhar informações de cunho institucional oficial, aliado do fato de fazer nomeações de parentes de vereadores e secretários para cargos estratégicos da administração municipal, desabonam o discurso de praticante da "nova política" usado e reforçado a todo momento pela prefeita vedete das redes sociais. 

Uma coisa que deve ser notada pela nossa população, ao menos aos que estão mais atentos aos acontecimentos dos primeiros dias de mandato, é que usar a rede social para comunicar-se com a própria base ou público segmentado de eleitores crentes que tudo irá funcionar bem e que qualquer decisão está acima de qualquer critério de legalidade e eficiência, é apostar em uma forma de governar bonapartista ou cesarista, ou seja, que nada possui de democrático ou republicano. 

Governar é ato administrativo sem pirotecnia, tanto que o ex-prefeito, que era tosco tratando-se de comunicação política, entregou elevado número obras de unidades de saúde, reforma de escolas, rede de iluminação pública, aumento da rede de saneamento básico, e até teve de presente o McDonalds ser inaugurado durante seu mandato, porém nada fez de marketing pró-ativo sobre suas conquistas de gvoerno. Se tornou um refém das críticas generalizadas, sendo um mero receptor de críticas da mais variadas fechado no próprio mundinho enviesado. Por outro lado, viver o mandato apenas de marketing é fazer de conta que está governando com eficácia, sendo também um viés equivocado. 

Diferentemente da eleição, a prefeita agora não tem que buscar ser queridinha da população, porque governar não se trata de concurso de popularidade, mas sim de entregar resultados. Fazer propaganda dos resultados e metas de governo atingidas, tudo bem, desde que aconteçam e sejam demonstrados de forma sóbria. Prestar contas do que está sendo feito e como está sendo feito, também é possível, desde que seja de forma clara e objetiva, não jogando confetes em figuras que nada agregam à pauta.  

Anunciar antecipadamente que irá fazer isso ou aquilo também pode ser considerado como vício da política sem conexão com a realidade de governo. Até porque governar é escolher prioridades e contrariar certos pedidos que não fazem jus de serem acolhidos por fatores e princípios administrativos. Governar não é jogar xadrez com pombos que pedem o impossível, o ilícito ou qualquer coisa que não seja de benefício coletivo, isso inclui os favorzinhos à base aliada de vereadores e empresários inescrupulosos que sobrevivem de vampirizar a máquina pública para o próprio gozo. 

Para não recair nos mesmos erros dos antecessores também será necessário conceder atenção aos apelos da massa crítica contrária ao governo de plantão. A turma do barulho que sempre bate na tecla da incapacidade do governo municipal ser elemento propulsor de mudanças deve ser ouvida, não como bússola marítima ou mapa cartográfico de navegação política, mas como previsão climática de tempos instáveis que precisam de maior atenção para manobras no alto mar da gestão pública e política. Muitos prefeitos afundaram por serem surdos e cegos às previsões de tsunamis políticos e tempestades administrativas, que geralmente foram causados por eles próprios durante seus mandatos. Quem semeia vento, colhe tempestades. 

A primeira sessão extraordinária na Câmara Municipal, ocorrida hoje, já deu o tom da conversa: mais trabalho e menos pirotecnia de vídeos de marketing. 

Em última análise, vencer nas urnas "não orna" muitas vezes com o que se faz na fase de governo. Entretanto, a fase eleitoral é curta e emocional, midiática ao extremo para fazer crer em um futuro melhor que nem sempre acontece. Enquanto que, a fase de governo é longa e deve ser racional, seguindo parâmetros da realidade do presente e não apenas do futuro incerto dos ventos políticos e capacidade do governante entregar suas promessas e projetos. 

Como dizia o saudoso vereador Armando Costa, antigo presidente da Câmara Municipal: "O povo não atura desaforo de prefeito!" 

Seja como for, governar é preciso!    


 

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