Liberdade democracia imprensa Redes Sociais

Opinião, Política

A prisão do ativista Julian Assange reabriu a discussão sobre o papel da imprensa, redes sociais em relação aos governos e regimes considerados democráticos em todo mundo. O australiano Julian Assange fundou o WikiLeaks em 2006. A plataforma publicou documentos e imagens confidenciais de governos do mundo todo, e se tornou conhecida em 2010, quando divulgou um vídeo que exibia soldados norte-americanos executando 18 civis de um helicóptero no Iraque. Em virtude disso, Julian Assange se tornou em inimigo capital não apenas dos governos de vários países, mas também de setores da imprensa e plataformas de comunicação social que buscam o monopólio político, cultural e econômico do fluxo de informações para a sociedade.

Narrar fatos do cotidiano da sociedade, política e economia debatendo sobre eles emitindo opiniões com variados pontos de vista é papel da imprensa profissional desde a fundação dos regimes democráticos.

Os jornais, revistas, emissoras de rádio e TV retratam através do jornalismo profissional os fatos e opiniões sobre os fatos. Abrir espaço ao debate público permitindo opiniões de especialistas em diversos assuntos com intuito de informar da melhor forma os leitores, ouvintes e telespectadores é parte do trabalho da imprensa dentro dos regimes democráticos onde existem as garantias constitucionais de liberdade de expressão e imprensa.

A discussão contínua e livre do cotidiano das relações da sociedade com a política, economia, elementos da cultura, como música, cinema e literatura, eventos esportivos e também catástrofes naturais, crimes e guerras fazem parte do trabalho de circulação de informação e opiniões sobre tudo que diz respeito à vida das pessoas que vivem numa sociedade pluralista e repleta de contradições sociais, religiosas, culturais, políticas e econômicas.

Discutir abertamente fatos controversos e opiniões divergentes encontra lugar no regime democrático, pois a sociedade para ser de fato democrática necessita de liberdade de expressão e circulação de informações, opiniões e conceitos para se manter livre de governos autoritários e anti-democráticos. A liberdade de imprensa e opinião afasta desse modo a censura e fechamento da sociedade em torno de ideologias extremistas e contrárias a liberdade dos indivíduos. Em última análise, a democracia reconhece a legitimidade das diferenças de pensamento, escolhas de vida e direito a livre circulação de informação e opiniões como um pilar da própria democracia e liberdade dos cidadãos.

O debate público que anteriormente era mediado quase exclusivamente por grandes corporações, partidos políticos, representações religiosas, universidades e órgãos de imprensa de massa passou a ter companhia de novas vozes e idéias. A revolução da informação digital trazida pela internet e redes sociais levou a um novo patamar o debate político, econômico, religioso, cultural, comportamental e científico, pois permitiu acesso e democratização.

A internet teve como grande valia permitir o acesso a informação em tempo real de todos os lugares do mundo, provendo também acessibilidade aos conteúdos científicos, educacionais culturais antes restritos e limitados aos grupos segmentados de universidades, corporações e instituições religiosas, políticas e econômicas.

No passo seguinte, da revolução digital da comunicação, houve a invenção das redes sociais, que permitiu uma enorme massa de pessoas dialogarem, debaterem e trocarem não apenas conhecimentos, mas também ter a oportunidade transpor os limites do mundo da internet para práticas e ações da vida real, tanto para o bem como para o mal. Perante tamanha inovação da comunicação acerca de fatos, idéias e debates, as entidades políticas mais retrógradas, manifestas no idealismo da extrema esquerda e direita, passaram a usar esses meios para também semear suas ideologias e, quando no poder, foram velozes em ameaçar o poderio da liberdade de circulação de informações, seja através da imprensa ou mediante redes sociais, pois governos extremistas e autoritários tentam, a todo momento, abolir ou cercear os meios de comunicação, informação e debate criando mecanismos de controle político, econômico e social dessas mídias.

Tais acontecimentos demonstram, de forma ímpar que o uso do que há de melhor e pior na comunicação moderna é amplamente utilizado inclusive nas estratégias de obtenção e manutenção de poder político, seja de grupos extremistas populistas existentes em muitos lugares do mundo, seja por grupos econômicos ou religiosos fanáticos. Esses grupos segmentados desenvolveram estratégias de marketing e comunicação para agregar e manter seus adeptos integrados e associados em segmentos da vida real a partir das redes sociais, criando blogs e mecanismos de agregação de conteúdos e bolhas que restringem a circulação de informações e opiniões fluindo apenas no sentido de um único viés ideológico, ou de uma única e determinada corrente acadêmica, religiosa ou econômica como sendo a verdade dos fatos e opiniões diante de um mundo, que desde sempre, a diferença e contradição fazem parte do debate e relacionamento humano.

A partir disso acirra-se não apenas a crítica ao papel da imprensa profissional, dos meios de comunicação tradicionais, do conhecimento humano acadêmico e crenças religiosas, mas também se agrava, em larga escala, o radicalismo político, religioso, cultural e acadêmico que toma como verdade uma única postura e conduta pré-determinada e ditada por grupos que perderam a capacidade de compreensão de premissas opostas, diálogo de idéias e conceitos, causando por fim, em meio às tensões, a busca incessante por aniquilar tudo aquilo que é diferente e contraposto às inúmeras seitas modernas do pensamento único.

Diante disso, em termos de democracia, o que vemos ganhar corpo e espaço são grupos políticos que motivam segmentos da sociedade para apoiarem regimes autocráticos onde controle e censura da imprensa, cultura e ensino fundamental e universitário são aceitos como algo necessário, uma vez que, a aversão em face dos fatos, da liberdade do debate, do argumento, da opinião divergente e, oposição de idéias se torna um inimigo.

Para tudo isso vale a síntese de Voltaire: “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”. O debate público, ao contrário do que pensam os adeptos da censura e das bolhas, fortalece não apenas a democracia, mas também os valores mais nobres da humanidade tais como solidariedade e principalmente liberdade.