‘Doutrinação e Educação’ – as realidades que não se confundem

Economia, Itapeva, Opinião, Política, Região

Tomou atenção da mídia nas últimas semanas, as declarações polêmicas e atabalhoadas do ministro da educação. O ministro não pensa em educação, pensa somente em dar combate institucional ao que chama de doutrinação ideológica marxista e nada mais que isso. Ele não tem menor ideia do que seja educação e menos ainda dos desafios do país nesse setor tão massacrado em diversos sentidos.

Punir universidades porque alunos e docentes aderiram a uma corrente política que não é idêntica a do atual governo é combate a livre manifestação de pensamento. Docentes e graduandos devem ser avaliados pro seus méritos acadêmicos, independente de posição política.

A discordância de pontos de vista entre alunos e professores sempre existiu em sala de aula, e continuarão existindo dentro de toda relação saudável de ensino de qualquer disciplina escolar ou de graduação universitária.

O conceito mais básico de educação tem ligação com a própria palavra educar, que provém do latim “educere” cujo significado é compreendido como conduzir e orientar para a vida. Aos educadores é imposta a nobre e árdua missão de transmitir não apenas conteúdos das matérias que lecionam, pois um professor não deve ser apenas detentor e transmissor do saber, mas sim, operar a tarefa de fazer com que os alunos aprendizes encontrem os melhores meios para alcançar novos conhecimentos.

Permitir que em sala de aula seja realizado o diálogo, debate e questionamentos em torno de conceitos, fatos históricos, textos e posicionamentos científicos nunca deve ser confundido com doutrinação política, mas sim como atividade para estimular a reflexão e pensamento como caminhos do saber.

Um dos grandes pilares da educação moderna é fornecer aos professores e alunos meios e adoção de métodos pedagógicos e científicos de aprendizagem que promovam “aprender a aprender” da forma mais multifuncional e interdisciplinar possível. Defende-se também que a relação educador/educando tenha cuidado em conhecer as motivações e necessidades de seus alunos, para com base nos conteúdos aplicados em sala de aula despertar a vontade pelo aprendizado constante de crianças em fase de iniciação escolar e alfabetização, jovens em estágio de formação intelectual intermediária, adultos que cursam graduação e pós-graduação.

A valorização que se tem dado para as experiências individuais e coletivas de alunos tornem-se em ponto de partida do aprendizado, servindo de motivos particulares para estarem em sala de aula, deve ser compreendida por aqueles que confundem o ambiente da sala de aula com campo de batalha ideológico político. A operosidade dos educadores em gerar reflexões pautando provocações reflexivas e críticas sobre dilemas políticos, econômicos, culturais e sociais sempre foi ferramenta de ensino. Principalmente do ensino voltado para o mercado de trabalho e desenvolvimento econômico e social, onde as questões controversas advindas da política, cultura e economia interferem na vida profissional de todos os setores da sociedade.

Inserir em sala de aula temáticas referentes à vida social, cultural, política e econômica da sociedade onde se vive possibilita que cada aluno pense por si e desperte interiormente o devido interesse por usar seu aprendizado como um instrumento para construir sua própria identidade intelectual através do debate de ponto de vistas controvertidos sobre assuntos polêmicos de difícil consenso. No transcorrer da formação escolar e acadêmica os frutos e dividendos cognitivos desse tipo de embate de idéias possibilita aos alunos maior amplitude e receptividade para novas idéias, conceitos, teorias e conhecimentos em suas atividades guiadas por docentes, seja em sala de aula, projetos de pesquisa ou qualquer campo de trabalho profissional que demanda conhecimentos e inovação.

A relação professor/aluno (independe do modelo pedagógico adotado) também deve partir da crença de que a instrução escolar e acadêmica é uma ferramenta para que pessoas tenham meios de conhecimentos individuais para defender aquilo que acreditam e, se necessário, tenham instrução necessária para reivindicar contra o que lhes é imposto injustamente em qualquer ambiente da vida em sociedade e relações humanas.

No mundo contemporâneo existe grande demanda por capital intelectual diversificado, com capacidade de criação, identificação e superação de teorias e conceitos. Dentro desse contexto é possível perceber que, às vezes, o jovem recém formado em escolas e universidades sente-se pressionado pelo mercado de trabalho onde estão inseridos elementos de exigências contínuas por produtividade e resultados. Aprender a lidar com esse cenário, adotando uma atitude de questionamento e reflexão gerando novas formas de pensar e agir, além de contestar o que é dado como certo e absoluto é considerado como primordial nesse mercado, porém sempre com bom senso e respeito em relação aos direitos e opinião alheia de quem discorda ou contesta pontos de vistas do “status quo” conservador ou do progresso e liberalização de pautas políticas, sociais, culturais e comportamentais.

Quando se debate sobre doutrinação ideológica em nível escolar e acadêmico a premissa que mais impressiona nesta discussão é a total incapacidade de muitos (salvo raras exceções) dos debatedores e militantes dessa tese reconhecerem serem desconhecedores do que consiste a relação professor-aluno-aprendizado, ou gestão escolar e acadêmica, com fundamento em qualquer teoria pedagógica. A análise da questão da doutrinação ideológica se torna cada vez mais pautada e verificada na premissa de um grupo político radical contra outro que discorda e contraria suas teses e crenças políticas e morais. O debate que transcorre em torno da doutrinação é escassamente fundado e fundamentado em pressupostos de objetividade pedagógica e jurídica correlacionada com o que se espera do ensino escolar e universitário público de qualidade.

A prática retórica de rejeitar ou enaltecer determinados processos de aprendizado, ou do como deve se estabelecer e desenvolver a relação didática entre professores e alunos, leva mais em conta pontos políticos e moralistas controvertidos do que fundamentos e referenciais teóricos e práticos de pedagogia e filosofia da educação. Os erros da discussão e suas consequências negativas, tanto para o ambiente escolar e universitário, quanto para a carreira de professores e formação de alunos, nasce desse pano de fundo onde o proselitismo político e moral toma lugar da ciência da educação e profunda compreensão do que realmente de fato transcorre dentro das unidades de ensino infantil, fundamental, médio e superior no Brasil.

Será que a polêmica exacerbada sobre professores serem considerados como doutrinadores é realmente sobre qualidade da educação, ou é sobre impor pautas políticas de uma ideologia política sobre a educação? A pergunta se faz necessária. Os episódios recentes onde se estimula gravação de aulas e professores dentro de salas aulas estão gerando mais conflitos e controvérsias do que necessariamente um debate sensato e qualitativo sobre o que vem a ser a prática do ensino e atividade da docência cumprindo regras e normas pedagógicas e legislação.

Quando alunos ou professores utilizam verbosidade inconsequente sobre posicionamentos políticos (confundindo isso talvez com retórica e debate) dentro de salas de aula, isso se transforma rapidamente em cerne duma disputa política totalmente desvinculada da pauta sobre educação ou aprendizagem. O debate acalorado em defesa de pontos de vistas opostos entre alunos, ou entre alunos e professores, difere claramente de contextos de incitação ao ódio, à violência acusativa que professores sejam doutrinadores ideológicos baseados no simples motivo de expressarem determinadas opiniões e relatos que são amparados pela liberdade de cátedra. (A liberdade de cátedra ou liberdade acadêmica é um principio que assegura a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber. Tem como finalidade a garantia do pluralismo de idéias e concepções no ensino, especialmente o universitário, bem como a autonomia didático-científica).

Existem professores e alunos, e existem doutrinadores travestidos de professores, assim como existem militantes políticos travestidos de alunos. A primeira relação se baseia no ato da educação tendo como finalidade transmissão e geração de saber, de exercício da docência e aprendizado. A segunda relação não pertence sequer ao ambiente de sala de aula e aprendizado, pois incorpora elementos de agressão ao direito do exercício profissional da docência e aprendizado dos alunos, ao mesmo tempo, que, agride e viola o direito à liberdade de cátedra e livre expressão de pensamento dentro duma atividade didática.

A diferença entre essas duas naturezas precisa ser colocada no horizonte dessa discussão para nortear e desmistificar o que é atividade educacional e atividade de militância política radical dentro da sala de aula e ambientes escolares e acadêmicos.